Boston – Boston (1976)

Lançado em 25 de agosto de 1976, o trabalho em questão, que apresentou ao mundo hits como “More Than a Feeling” e “Peace of Mind“, é produto do esforço e da insistência de um mestre em engenharia com seu estúdio caseiro. Como resultado, é, até hoje, o segundo disco de estreia mais vendido da história – perdeu o primeiro lugar após o também gigantesco “Appetite for Destruction” (1987), do Guns N’ Roses. […] O mestre em engenharia citado no parágrafo anterior é o guitarrista Tom Scholz, formado pelo Massachussetts Institute of Technology (MIT), uma das instituições de ensino mais respeitadas dos Estados Unidos. O músico, que já estava com 29 anos em 1976, trabalhava na empresa de máquinas fotográficas Polaroid. Em seu tempo livre, construiu um estúdio no porão de casa, onde gravava demos.

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Fagner – Raimundo Fagner (1976)

“Não sendo ainda um ídolo popular, quando gravou este disco, Fagner já era uma figura importante na indústria fonográfica, um bom vendedor de discos no plantel da então CBS. Depois do intrincado e belo Ave Noturna, gravado com o Vímana e outros músicos de prestígio, Fagner resolveu fazer um LP de sotaque roqueiro. Com instrumentação majoritariamente elétrica e a presença igualmente eletrizante de Robertinho do Recife nas guitarras, o disco funde o canto mouro e as inflexões nordestinas com precisos e pesados arranjos blueseiros. O estranhamento começa com a abertura com “Sinal Fechado”, o clássico de Paulinho da Viola, quase irreconhecível num emaranhado de canto e contracanto tendo uma cornucópia de cordas no background. Emenda com o blues acústico “Conflito”, cheio de fraseados de bateria. Canções como “Asa Partida”, “Pavor dos Paraísos”, Cordas de Aço” e sobretudo “Sangue e Pudins” são números rock com ataque irretocável da banda e a guitarra virtuose de Robertinho. Se você tem menos de 30 anos, dificilmente reconhecerá este Fagner aqui.”

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Maria Bethânia – Pássaro Proibido (1976)

“O disco “Pássaro Proibido” conseguiu sintetizar o discurso politizado de sua época, assim como reafirmou sua orientação religiosa e suas raízes, elucidando memórias afetivas de sua infância. Na sequência, Maria Bethânia reuniu-se com Gal Costa, Caetano e Gilberto Gil, pra formar o mítico “Doces Bárbaros”, embarcando numa turnê que geraria mais um disco ao vivo, seguido de um documentário dirigido por Jom Tob Azulay. De lá pra cá, a cantora, que rendeu à Estação Primeira de Mangueira o título de campeã do Carnaval deste ano, voou livremente para dar voz às canções que todos fazem pra ela.”

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Gal Costa – Gal Canta Caymmi (1976)

Em 1975, Gal havia feito uma turnê junto com Dorival Caymmi, apresentando-se em três capitais brasileiras. Além disso, a composição “Modinha para Gabriela”, de Caymmi, era um sucesso na abertura da novela “Gabriela”, da Rede Globo. Nesse clima, Gal acaba por lançar em março de 76 um disco só com composições de total autoria de Caymmi. O álbum é uma espécie de songbook da obra do baiano (nos moldes em que Ella Fitzgerald revisitava autores lá fora), algo ainda incomum no Brasil e que tornar-se-ia prática usual, vide os álbuns de Bethânia cantando Roberto Carlos e Vinícius de Moraes e Ney Matogrosso cantando Chico Buarque e Cartola. “Gal Canta Caymmi” acaba por ser um álbum popular e acessível, que traz a força de Gal, mas ainda assim não foge muito do universo sonoro do autor. A grande diferença é a delicadeza que a voz da cantora traz a essas composições, sempre atreladas à voz forte e intensa da família Caymmi. A canção “Só Louco” acabou tornando-se um sucesso na trilha da novela “O Casarão”, também da Globo, fato que faz com que a canção retorne ao repertório de Gal em seus shows esporadicamente.

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Cartola – Cartola (1976)

Um LP que começa com “O Mundo É um Moinho” já merece palmas logo de cara. Essa composição, uma das mais bonitas da música brasileira, ganha um tom delicado com a flauta no início e o violão fazendo o acompanhamento de forma leve, mas a letra é bem triste e fala sobre uma decepção amorosa. Regravada aos montes por aí, nenhuma bate a interpretação original. Depois a faixa ganha força da presença de mais instrumentos, porém o tom continua seguindo a sobriedade das palavras ditas.

“Minha” é outra também melancólica. O tom mais animado ajuda a dar um tom de resignação do personagem principal, que acreditou em “cartomantes, bolas de cristal e cigana” quando contaram a ele que ela seria dele até o fim. Para exaltar a escola de samba Mangueira, “Sala de Recepção”, com a participação de Creuza dos Santos (1927-2002), foi composta em 1940 para homenagear a então novidade no carnaval carioca. No Rio de Janeiro, escola de samba é coisa muito séria – mais importante que time de futebol.

Uma típica faixa composta para reclamar da atitude de uma mulher, “Não Posso Viver Sem Ela” é sobre o homem que sempre perdoa, mesmo sabendo dos defeitos e dos pecados da amada em uma gafieira das mais animadas. A seguinte, a linda “Preciso Me Encontrar”, foi um pedido de Barroso ao amigo e também sambista Candeia (1935-1978) para o disco. E ninguém mais do que Cartola conseguiria cantar a angústia de sair por aí sem destino, enquanto a mágoa o corrói por dentro. A saudade é tema de “Peito Vazio”, o encerramento do lado A.

E o lado B abre com outra faixa de letra melancólica, “Aconteceu”, mas, de novo, o tom animado esconde que o personagem está dispensando a antiga amada por não amá-la mais. Outro clássico, “As Rosas Não Falam” nasceu de uma dúvida de Dona Zica sobre ter tantas rosas logo após serem plantadas. Cartola simplesmente respondeu: “não sei, as rosas não falam”. Dessa frase nasceu outra grande composição do sambista sobre a melancolia do amor.

“Sei Chorar” trata de uma pessoa já experiente na arte da decepção amorosa que fica desapontada por um amor platônico, já “Ensaboa” é uma faixa simples sobre o hábito de lavar roupa no rio. E se “Senhora Tentação”, de Silas de Oliveira, traz a adrenalina do duelo interno de sucumbir à tentação, “Cordas de Aço” é uma homenagem ao eterno companheiro de composição: o violão.

As composições de Cartola são a fina flor do samba brasileiro. Poucos conseguiram traduzir o cotidiano em canções tão simples de entendimento. Esse disco deveria ser estudado nas escolas de tão bom que é e por trazer letras incríveis.

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