Gilberto Gil – Refazenda (1975)

A deliciosa faixa “Ela” abre o trabalho mostrando como Gilberto Gil é um cara muito especial para compor músicas. O gingado e suingue dela mostra todo esse potencial dele em fazer um tipo de canção pop que só ele consegue – os arranjos são ótimos. Para abrir o álbum, colocar o pessoal para dançar é sempre uma boa escolha, ainda mais vindo de quem vem.

Da dupla Anastácia e Dominguinhos, “Tenho Sede” tem aquele simbolismo do retirante nordestino ao deixar o lar. Se o cantor estava retornando ao simples, essa faixa não tem nada disso. Ao contrário, a complexidade dos arranjos e da letra melancólica (Traga-me um copo d’água, tenho sede/ E essa sede pode me matar/ Minha garganta pede um pouco d’água/ E os meus olhos pedem teu olhar) são fundamentais para compreender o álbum. Aqui, a versão escolhida é uma ao vivo que consegue transmitir todos esses sentimentos.

Outra faixa muito complexa é “Refazenda”. De ritmo infantil e de fácil acompanhamento, tem ótimas sacadas e rimas fáceis de lembrar. Mais uma vez, prestem atenção ao arranjos no fundo. O passado está nas palavras (Abacateiro serás meu parceiro solitário/ Nesse itinerário da leveza pelo ar/ Abacateiro saiba que na refazenda/ Tu me ensina a fazer renda que eu te ensino a namorar), mas o presente está na qualidade das melodias. Que trabalho espetacular.

Gil afirma que “Pai e Mãe” “foi o primeiro manifesto da nova afetividade que se desenvolvia na época, indiscriminada com relação à sexo”, principalmente pelo verso Eu passei muito tempo/ Aprendendo a beijar outros homens/ Como beijo o meu pai. Além disso, é uma faixa muito bonita sobre afeto, já “Jeca Total” tratou do Brasil daquela época de maneira muito simples e eficiente. E a experimental “Essa é pra Tocar no Rádio”, inspirada em um disco de Miles Davis que o cantor estava ouvindo, é uma ironia ao fato de ele não tocar no rádio.

Texto Original: